11/10/2017 09h16 - Atualizado em 11/10/2017 09h16

Júnior Cigano abre o jogo: vida nos EUA, filho, rivais e doping: "Fiquei devastado"

Por: globoesporte
 

Era uma sexta-feira, e Júnior Cigano terminava mais um dia de treino em Coconut Creek, na American Top Team. Ele já se arrumava para voltar para casa, na vizinha Coral Springs, onde mora com a família no estado americano da Flórida, quando o celular tocou. Era Ana Cláudia Guedes, sua advogada. A notícia, num primeiro momento, deixou o lutador peso-pesado atônito. Parecia impossível acreditar: "Como assim caí no doping? Impossível, não tomo nada, que absurdo é esse?". Foram as primeiras palavras do ex-campeão do UFC ao saber da notificação da USADA (Agência Antidopagem dos EUA) por doping, no último dia 18 de agosto.

  • Até chegar em casa achei que era sacanagem, não estava acreditando. Encontrei minha esposa e ela já falou: "A USADA te notificou, você caiu no doping". "Mas não é possível, pelo amor de Deus, no que fui cair?". E comecei a procurar informação. Ligamos para o pessoal do UFC no outro dia e nos mostraram que tinha sido um diurético. E uma quantidade até muito pouca, nem agiria como diurético no meu corpo. Até demorei muito para fazer xixi e não estaria agindo como diurético no dia do teste. Mas eles encontraram a substância e, uma vez que encontraram, a regra para um é a regra para todos. Por menor que seja a quantidade encontrada. O que mostra certamente que foi uma contaminação. Eles não tinham o que fazer a não ser me notificar e me tirar da luta - afirmou o lutador, em conversa exclusiva com o Combate.com, em Salvador.

A luta em questão aconteceria 22 dias depois, contra Francis N’Gannou, no UFC 215. Cigano foi testado com exame de sangue e urina em 12 de julho, e os testes foram negativos para a presença de qualquer substância proibida. No dia 10 de agosto, a USADA fez novo, desta vez apenas de urina. Resultado: foi encontrada uma substância chamada "hidroclorotiazida", um diurético proibido pelo código da WADA (Agência Mundial Antidoping) por mascarar ou dificultar a pesquisa do uso de substâncias dopadoras.

  • Se estivesse tomando alguma coisa e quisesse esconder, usaria muito diurético para esconder a droga. Uma mínima quantidade num intervalo de um mês (entre os exames) não esconderia nada, teria que usar muito. Mas está lá na regra da Usada, consta como substancia proibida, eles encontraram na minha urina e como qualquer um estou respondendo por isso. Hoje, independentemente de ser justo ou não, tenho cumprido a minha parte, é o melhor que posso fazer. Até para colaborar para que eles imponham isso cada vez mais e mantenham o esporte limpo (...). Mas as pessoas não diferenciam se foi uma contaminação mínima por diurético, que não te beneficia em nada, a não ser perder peso, e para que vou tomar isso? Sou peso-pesado, não tem sentido nenhum tomar diurético.
  • Júnior Cigano sempre foi um defensor público do trabalho implantado pela USADA junto ao UFC, que começou em julho de 2015. Quando alguém levantava suspeitas sobre os lutadores em geral, o lutador catarinense fazia questão de dizer que nunca usou nenhum tipo de substância proibida.

  • Tudo nessa história é meio que absurdo para mim. Estou conscientemente tranquilo. Sempre que alguém comenta de luta ao meu redor, fala: "Mas para ser campeão, precisa usar alguma droga, todos os caras usam". E eu enchia o meu peito para dizer que não é assim. Nas minhas palestras, quando falava com a garotada, sempre enchi meu peito - e continuo enchendo - para dizer que não. Me tornei campeão do mundo sem nem saber o que é esse tipo de droga, como anabolizante, e isso continua até hoje.

Com a notícia do resultado positivo no seu teste de urina, Júnior Cigano passou a se questionar quanto ao trabalho da agência americana. E ainda ressaltou a dificuldade de identificar a origem da substância encontrada em seu corpo.

  • Fiquei devastado logo no início. Sempre lutei a favor da USADA, sempre disse o quanto a apoio, e o quanto apoio o esporte sem drogas, o esporte justo. Sempre joguei o jogo limpo, tenho consciência tranquila. Agora tudo está sob investigação, mas esse é outro problema, porque não faço ideia de onde veio isso, e agora cabe a mim provar minha inocência, e isso é meio estranho. No início pensava muito comigo mesmo: "Para que a USADA está lá? Para trapaceiros ou para a galera que joga certo e acaba como vítima?". Óbvio que estou sendo vítima de alguma situação que eu também não sei ainda o que é. Estou recebendo um apoio imenso do pessoal não só da USADA, como do UFC também, na busca por respostas. Essa coisa de não saber a resposta é um absurdo, isso te corrói por dentro, parece que te arranca a alma. Sempre falei muito alto contra tudo isso, e vou continuar falando, mas a única coisa que me pergunto hoje é isso: "A USADA está lá para os trapaceiros ou para quem é inocente e acaba caindo numa situação dessa?".

Cigano, de 33 anos, contratou um advogado especialista no assunto para cuidar da questão. Ele lamenta que sua imagem tenha ficado manchada com as notícias veiculadas sobre o resultado do primeiro teste. O lutador pediu a contraprova, mas não tem esperanças de que aconteça um resultado diferente. - O prejuízo para a minha imagem foi impressionante. As pessoas não entendem e já consideram como droga, muitos já me taxaram como drogado. Nunca, nunca na minha vida imaginei que passaria. Tanto que falava alto quando falava sobre isso. Não faço uso desse tipo de coisa e não preciso. No início da minha carreira, logo depois da primeira luta, parei de beber, não saio na noite, cuida da minha alimentação, minha esposa faz um trabalho fenomenal, já é uma nutricionista quase, ela faz tudo seguindo as orientações do meu nutricionista, cuido da minha alimentação, cuido da minha suplementação, cuido dos mínimos detalhes para chegar na hora da luta e captar o meu máximo.

Com um cartel de 18 vitórias e cinco derrotas, Júnior Cigano ainda lembrou o lado financeiro envolvido na questão do doping. Se não lutar, não ganha.

  • Sei que sob investigação você não pode lutar, mas isso é extremamente prejudicial. Todos sabem que nós lutadores só recebemos quando lutamos. Fora isso, não tem nem patrocínio, o UFC não permite mais. Ou seja, a gente só recebe quando luta. Se você ficar um ano sem lutar, é um ano sem receber. E vive como? Como sustenta sua família? E o que dói é saber da minha inocência, e de repente algo assim acontece comigo. Não estou dizendo que sou diferente de ninguém, ao contrário, regra para um é a regra para todos. Mas me cuido, e a gente está indo fundo nessa história, a verdade tem que sair de algum lugar. Estamos sendo punidos antes de sermos julgados. Perceba o tamanho desse peso, uma imagem fortalecida quanto a isso (na defesa da USADA). E minha imagem foi prejudicada no mundo inteiro, as pessoas estão duvidando de mim.
  • No próximo dia 28, em São Paulo, o UFC realizará mais uma edição, e Júnior Cigano participaria da transmissão da TV Globo. Com a notificação, acabou fora da programação.

  • Sou comentarista da Globo e não vou poder fazer esse evento no Brasil. Numa conversa extremamente tranquila com a Globo - e faz total sentido -, chegamos à conclusão de que não seria interessante que eu participasse sob investigação, e não poderia tomar o tempo da programação para falar de mim. Chegar lá sem dar uma resposta para as pessoas ficaria complicado também. Concordei plenamente e aceitei. É um prejuízo extremamente grande, na minha vida e na minha carreira. Me atingiu muito forte. Mas tenho plena consciência da minha responsabilidade enquanto atleta e como pessoa. Eu não falo as coisas, pratico o que eu falo, não sou político. Aos poucos, tudo vai se esclarecer, mas demanda tempo.

  • O ex-campeão peso-pesado do UFC também disse ter ciência de que esse fato poderá ser usado contra ele pelos rivais. É outra situação que vai ter que aprender a lidar, diz ele.